Um pote de Vick, um casamento misterioso

A mulher ao meu lado pegou um potinho de Vick e passou um pouco no nariz. Não sou uma pessoa de faro apurado, mas esse cheiro em específico reconheço de longe.

Sou de Mantena, interior de minas gerais (a última cidade antes de chegar ao Espírito Santo), mas moro em BH desde os 3 anos de idade. Morar há 458 km da cidade da família da minha mãe significa passar a infância e a adolescência entrando no Gontijo executivo pra visitar parentes pelo menos duas vezes por ano, em julho e dezembro.

Passava os dias ansiosa, louca para chegar na casa da minha avó, ganhar os presentes da minha tia-avó e encontrar com meus tios, primos, com a vovó Natinha (bisavó), padrinhos… Enquanto minha mãe organizava casa e escritório pra nenhuma crise fazer tudo sucumbir em sua ausência, eu contava pra Deus e o mundo que ia viajar. Eu ia pra MAN-TE-NA.

— Manteiga?

— Não. MAN-TE-NA.

Quando ia de ônibus, precisávamos de quatro poltronas: 11 e 12 pra minha mãe, irmã e o irmão mais novo. 13 e 14 pra mim e pra minha avó ou minha tia-avó ou minha tia ou meu avô. Ou algum adulto sem juízo que concordasse em acompanhar a família trololó durante 9 longas horas de viagem.

As constantes eram: sempre tinha um conhecido da minha mãe no ônibus, sempre tinha outra criança com quem eu puxava conversa, eu perturbando o busão inteiro com minha tagarelice, meus irmãos chorando e minha avó enjoando.

Dramin, vonal, plasil e sei lá mais o quê não funcionavam. Ela tomava, mas o enjoo sempre vinha. Era o cheiro da gasolina, dizia, apesar do combustível ser óleo diesel. Mesmo quando as viagens eram de carro e meu pai abastecia com álcool, era o cheiro da gasolina o gatilho pro vômito.

A única coisa que funcionava, na maior parte do tempo, era o cheiro de cânfora oleosa enfiado nas narinas: o Vick. Passei grande parte da vida com medo daquele potinho azul e verde, o odor era tão refrescante que chegava a ser frio. Se fosse só no ônibus até que tava bom, mas o tal do Vick era a receita da minha vó pra tudo.

— Tá com o nariz entupido? Passa Vick.

— Tá com dor nas costas? Passa Vick.

— Torceu o pé? Passa Vick.

— Queimou a perna na descarga da moto do seu tio? Passa Vick.

— Cólica? Torcicolo? Sinusite? Fratura no dedinho? Crise de bronquite? Dor muscular? Ralou a perna no cimento? Passa Vick.

Com o tempo, a obsessão pelo cheiro de cânfora deixou de ser irritante, até porque ficou mais rara. O tempo passou, as visitas diminuíram, as viagens de ônibus com a minha avó foram extintas, ela não aguenta mais. Daqui um tempo, sei que ela vai se esquecer até do potinho azul e verde, da mesma forma que está se esquecendo das nossas datas de aniversário.

Dia desses, minha avó, viciada em Tiktok, disse que certo cantor de idade avançada queria se casar com ela. O pobre do moço levou um fora porque ela não quer viver na roça. Como sou uma neta com o senso de humor peculiar, disse que não, ela não iria se casar com ele, porque eu iria. Conversei com o GPT, ele criou uma imagem minha ao lado do moço cantor e pronto, o caos reinou por alguns dias na cabeça da vovó.

— Você não pode casar com ele não, Bianca! E se eu disser que quero me casar com ele?!

— Você disse que não queria, agora eu arrumei meu velho da lancha.

— Ah… É brincadeira, tá? Pode casar com ele. Desejo muitas felicidades pra vocês dois.

Essa história virou piada na família e em alguns grupos de amigos, mas só serve pra esconder uma dificuldade minha que não sei resolver: as pessoas vão embora. A avó que me contava a história da Gata borralheira e do Sujismundo não se lembra mais delas. Às vezes, ela se esquece até que eu sou a neta e que minha mãe é a filha.

Falei em uma das mesas que participei no FLIPOÇOS que “Értom” me ajudou a curar a ferida que a morte da minha bisavó deixou, mas, ao contrário do que eu imaginava antes de escrever, ele não me preparou para lidar com a expectativa da finitude.

Acho que nenhum livro (meu ou de outra pessoa) vai conseguir me preparar pra isso, não quando a racionalidade deixa a gente em carne viva.

A Dona Inaiara mesmo diz:

— Se eu morrer, enterra! Joga em qualquer buraco!

— Mas como a gente faz antes disso, vó?

— Aí eu não sei…

Nem eu.

Ps. Não coloquei o nome do cantor, porque quero evitar processos em brincadeiras familiares de gosto duvidoso.

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