ódio entextado
— Recomendo pedir demissão, é muito bom.
Claro que rimos da frase, dita por mim mesma, a autora que vos fala, a um grupo de escritoras, durante o Flipoços. A brincadeira tem um fundo de verdade e gosto amargo, pelo menos nesse caso.
eu poderia falar das mesas que assisti no festival, das que participei, das amigas que reencontrei depois de muito tempo, mas a experiência de participar de eventos literários é singular e merece ser provada na pele mais do que nas crônicas.
Viajei para trabalhar. Tem acontecido muito isso. Por mais que eu me divirta, participar de mesas e conversar com deus e o mundo enquanto o sol queima nossos miolos é trabalho, e um trabalho que eu levo muito a sério, principalmente quando envolve tomar cerveja com os amigos que a literatura me deu.
Mas não é a realidade de todas as pessoas que vão a um evento literário. A maior parte delas têm outro trabalho. São médicas, jornalistas, professoras, advogadas, terapeutas, engenheiras ou o que quer que a vida tenha oferecido. O que para mim é, hoje, finalmente, parte da profissão de ser escritora, para outras pessoas é a fuga de uma realidade sufocante.
Essas pessoas deixaram para trás a possibilidade de ficar com a família em momentos de lazer ou de ganhar mais dinheiro na profissão oficial. Passear por ruas repletas de livros é uma fantasia em plena vida real, onde podem se esquecer que o que paga as contas mesmo não é poesia, é pé no chão.
Eu sou um ponto fora da curva, eu sei. Pelos privilégios que me permitiram largar tudo para viver de arte, pela coragem de mudar de lado quando tudo parecia encaminhado, pela força, vontade e necessidade que eu tenho de fazer essa caralha dar certo.
Dia desses escrevi em um texto que não sabia se sabia fazer outra coisa além de literatura, mas não é verdade. Não só porque eu já tive outra profissão antes, mas porque eu sou curiosa o suficiente para entender um pouco de várias coisas. E, na necessidade, todo mundo sabe se virar. Falei com um casal de amigos certa vez que o filho deles tinha um comprometimento que o levaria ao sucesso em qualquer carreira. Não é o talento que ele tem para determinada coisa que dita quão longe ele vai, é a capacidade de se virar, independente do ambiente. Habilidades assim são raras, ainda mais em um país limitado como o Brasil.
caso não tenha entendido o recado, vou deixar claro: meritocracia é o caralho. Esse tipo de coisa só é possível quando uma outra porção de outras coisas coincidem. A maior parte delas envolve condições financeiras decentes e dignidade humana.
Voltando ao filho do casal de amigos: um doido reconhece outro, disseram.
Mas o meu rolê com a literatura é mais profundo.
Ela me escolheu aos 10 anos de idade. Ela me inspirou e trouxe amigos aos 17. Ela me salvou aos 25 e me libertou aos 29. E é justamente esse o motivo de a frase “recomendo pedir demissão” ser uma piada amarga em rodas de amigos.
Nem todo mundo tem essa possibilidade, não aqui.
Propósito, talento, bênção, dom, chame do que quiser, ela pode ser várias coisas quando é necessário, mas só cresce e toma espaço quando algumas seguranças são determinadas.
E, no Brasil, segurança é coisa rara.
Daí a necessidade de tantas políticas públicas que promovem educação, inclusão, incentivo à leitura, cultura, artes, educação, saúde, cidadania, moradia e mais um monte de coisa. Toda vez que alguém vem com o discurso de que programas de assistência são desnecessários e que em países “evoluídos” isso não existe, um neurônio meu explode. Às vezes, explicar adianta. Às vezes, não.
E o mais bizarro é pensar que ter a consciência de classe e das desigualdades do nosso país também é privilégio.
não dos melhores, admito, eu viveria mais feliz se fosse alienada dentro do meu mundinho cor de rosa, sem dúvida
Enfim, divaguei. Talvez este texto seja exatamente o que parece: uma crítica ao sistema brasileiro. Inteiro.


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