e as voltas que o mundo dá
Acho que criei o Clube de Escritores de Belo Horizonte para a minha versão de 16 anos. Ela queria fazer faculdade de jornalismo porque gostava de escrever.
Àquela época, a faculdade de letras da UFMG tinha uma vertente voltada para edição, mas eu não sabia, nem conhecia ninguém que poderia me contar sobre isso. Mesmo assim, se alguém do meu círculo social soubesse, eu não teria coragem de perguntar.
Como alguém em sã consciência poderia dizer em voz alta que o seu sonho de vida era trabalhar com livros e ser escritora?
Na sétima série, uma colega de sala (a típica loira padrão popular) falou que queria fazer faculdade de letras e ser professora. Virou piada na turma pelos dois anos seguintes. Imagine se eu dissesse algo do tipo…
Sendo assim, depois de pesquisar e descobrir que as faculdades de jornalismo estavam acabando e que eu estaria fadada a morrer de fome se fosse por esse caminho (fonte: vozes da minha cabeça), decidi fazer o curso de direito (esse sim me deixaria rica, risos).

Uma das grandes ironias da vida da escritora que vos fala é que, apesar de ter os avôs paterno e materno advogados, quem me inspirou a querer ser advogada foram Diana Blade e Jennifer Parker, personagens de livros da Nora Roberts e do Sidney Sheldon, respectivamente.
Mais de dez anos depois, o mundo deu tantas voltas que preciso de um outro texto para contar (quem sabe um dia?), mas todos os meses, nos Encontros do Clube de Escritores de Belo Horizonte, uma parte de mim volta a ser a Bianca de 16 anos que sonhava ser escritora.
Se na época eu soubesse da existência de um grupo de pessoas que escrevem e que se reúnem todos os meses na minha cidade para falar sobre tudo relacionado à literatura, eu não faria faculdade de Direito. Porque eu aprenderia com eles como o mercado funciona, quais são as possibilidades, desafios, perspectivas… Eu venceria a vergonha de dizer em voz alta que sou escritora e que quero trabalhar com livros bem mais cedo, uns dez anos antes.

Já que tocamos no assunto, vou compartilhar com vocês uma das voltas que o mundo deu desde então.
O nosso projeto “Clube de Escritores pelo Interior” foi contemplado pela Aldir Blanc em 2025, abraçado pela equipe da Biblioteca Pública Municipal de Uberlândia e no último sábado (18/4) realizamos um encontro presencial que contou com a participação de mais de 40 autores e autoras locais. Se antes eu achava que era a única pessoa em BH que gostava de escrever, agora, graças ao Clube de BH e de Uberlândia, eu sei que somos muitos escritores e que estamos ansiosos (sedentos, talvez) por conhecer e conversar e aprender com nossos pares. E por “nossos pares” quero dizer outros escritores de todas as idades, iniciantes ou experientes, de todos os gêneros e cores e estilos. Mais até do que sonha a nossa vã filosofia, acreditem.

Pausa para a história dentro da história (porque eu não me aguento):
Quando éramos apenas 3 ou 4 gatos pingados que escreviam, uma cafeteria de BH nos expulsou dos seus luxuosos aposentos. Ficávamos muito tempo (isso é verdade, mas consumíamos cafés e comidas super faturadas), ocupávamos espaço (o espaço que usávamos sempre ficava vazio aos sábados), nossa beleza entrava em conflito com a decoração… escolha a desculpa que mais fizer sentido para você.
Eis que ontem, enquanto repostava as fotos de quem marcou nosso clube no instagram, apareceu para mim um vídeo da dona cafeteria. Teve um lançamento de livro lá, de um escritor. E o escritor, querido leitor, é um dos sócios do estabelecimento (e era sócio na época em que fomos expulsos, quem diria?).
Tirem suas conclusões, pequenos gafanhotos, eu já tirei as minhas.
Voltando aos escritores sedentos por contato com outros escritores:
Como encontrá-los?
O jeito que eu fiz foi tão simples que chega a ser ridículo: encontrei dois escritores (Monique de Magalhães e Emanoel Ferreira), sugeri montarmos um Clube de Escritores, divulgamos no instagram e as pessoas apareceram.
É claro que no meio do caminho eu tive dor de barriga antes de quase todos os encontros. Sempre tenho medo de ficar sozinha em uma mesa enorme e perceber que a minha personalidade impostora está certa e tudo o que eu faço e falo todos os dias é uma grande perda de tempo. Depois de dois anos e sete meses de reuniões mensais, presenciais e virtuais, nunca aconteceu. As pessoas aparecem. Pela primeira, terceira ou décima vez. E continuarão aparecendo.
Porque, apesar do cenário catastrófico e desesperador que a literatura vive atualmente, as pessoas sempre escreveram, desde que descobriram as pinturas rupestres. E continuarão escrevendo.
Amém.
Você pode acompanhar o Clube de Escritores de Belo Horizonte pelo instagram: https://www.instagram.com/clubedeescritoresbh/
As informações sobre os encontros são compartilhadas no grupo de whatsapp: https://chat.whatsapp.com/GlOxpSmKV3L5MfR80W0VBT

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