
Eu quero que todo mundo vá para o inferno. Mas eu acho que o inferno é aqui. Hoje é dia 20 de março de 2021 e no dia 19 do ano passado o órgão onde eu trabalho começou o que chamaram de “regime de trabalho diferenciado” ou qualquer baboseira do tipo. Para mim, a pandemia começou ali.
Passamos 2020 com a esperança de que uma vacina seria fabricada. E, agora que foi, minhas previsões que pareciam pessimistas provaram-se realistas: temos várias vacinas e, por enquanto, isso não adianta porra nenhuma.
Eu também passei um ano inteiro sem escrever sobre a pandemia. Quando tudo o mais era desespero, pensei que pelo menos esse meu espaço aqui fosse feito de algo mais tragável, menos óbvio. Queria que minha própria escrita fosse sobre um mundo diferente, que poderia ser meu refúgio. E foi. Durante um bom tempo eu me afoguei em um romance que agora tem cerca de 30 a 40 mil palavras e que eu pretendo terminar em breve. Mas a verdade é que eu queria mesmo que o mundo acabasse.
Eu não assisto aos jornais, não escuto rádio, não visito sites de notícias. Mesmo assim, as notícias chegam até mim. As pessoas contam, retwittam, compartilham, postam no instagram e comentam no whatsapp. Hoje eu vi dois extremos que me serviram de motivação para escrever isso aqui: nos stories, uma série de pessoas compartilhando momentos de aglomeração: praia, igreja, churrasco, festa de aniversário, rua… Também nos stories, uma foto de um paciente no leito de uti e, ajoelhado ao seu lado, um médico: seu irmão. Cliquei na foto e li um texto que contava a história da foto e fazia um pedido para as pessoas se cuidarem e cuidarem dos seus familiares e amigos. Passamos um ano assim. Quanto tempo mais teremos que passar?
Você pode culpar várias pessoas, animais, entidades diferentes. Você pode escolher atacar o Bolsonaro, o chinês, o morcego, o capeta. Mas a verdade é que estamos no mesmo navio e todos nós contribuímos para o naufrágio, dia após dia. Já disseram isso, eu sei que é redundante e óbvio, mas o óbvio precisa ser dito. Entretanto, correndo o risco de ser mais uma vez pessimista, nada do que qualquer pessoa disser vai adiantar. Não temos salvação. Nem divina, nem heroica, muito menos humana.
E quando eu disse que queria o fim do mundo, não imaginei que seria uma tortura infinita. Pensei em algo mais brusco, que pegasse todos de surpresa e então tudo ficasse escuro e desaparecesse. E os alienígenas contariam aos seus filhos a história da terra, o planeta que foi extinto por causa de uma única espécie: a humana.
Agora, estou sorrindo. Não faço ideia se acredito ou não em alienígenas e a ideia do fim do mundo com meteoros e/ou zumbis parece absurda até para mim. Mas, confesso, eu não reclamaria se acontecesse. A verdade é que eu quero que todo mundo vá para o inferno. Mas, infelizmente, eu acredito que o inferno é aqui.

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